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Universidades brasileiras ainda não são sustentáveis Notícias – 23/06/2010

Por Roberto Machado

Avalie se sua universidade é sustentável

A ULSF (University Leaders for a Sustainable Future), dos Estados Unidos, elaborou um questionário que mensura o envolvimento de instituições de Ensino Superior com a sustentabilidade. O SAQ (Questionário de Avaliação Sustentável) avalia sete itens: currículo; pesquisa e bolsas de estudo; operação; desenvolvimento de corpo docente; serviço; oportunidades para estudantes; e administração, missão e planejamento. Identifique o grau de sustentabilidade de sua universidade:

1 -Em quais cursos a sustentabilidade é abordada?

2 -Dê exemplos sobre pesquisas de sustentabilidade que estão sendo feitas dentro do campus.

3 -O que você vê enquanto anda pelo campus que mostra que sua universidade é sustentável?

4 -De que maneira os critérios de contratação e promoção do corpo docente contribuem com a responsabilidade sustentável dentro da instituição?

5 -Quais tipos de programas sociais relacionados à sustentabilidade a universidade promove?

6 -Como a instituição encoraja estudantes a considerar a sustentabilidade na sua carreira profissional?

7 -Qual a preocupação e o comprometimento da sua instituição com palestras sobre o tema e o Dia do Meio Ambiente? Descreva o que é feito.

Confira o formulário na integra. www.universia.com.br

O Relatório Brundtland -elaborado em 1987 pela Comissão Mundial sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento -exemplifica o desenvolvimento sustentável em atos que satisfaçam as necessidades presentes da sociedade sem comprometer o futuro do planeta. É baseado nesses preceitos que o SAQ (Questionário de Avaliação Sustentável, traduzido do inglês) da ULSF (University Leaders for a Sustainable Future) aconselha as instituições de Ensino Superior a terem uma visão ecologicamente correta no que diz respeito à grade curricular de seus cursos, ao desenvolvimento profissional dos funcionários, bem como ao corpo docente, à pesquisa, à administração e à missão. Diretrizes que podem ser determinantes para as futuras gerações, mas que, no Brasil, segundo profissionais da área, parecem estar distantes da realidade do campus universitário.

De acordo com Fernando Walcacer, vice-coordenador do NIMA/PUC-Rio (Núcleo Interdisciplinar de Meio Ambiente da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro), os conceitos do relatório, na maioria dos casos, não fazem parte da realidade do Ensino Superior brasileiro. "Não existe comunicação entre professor, aluno e sociedade, tampouco compromisso ético". Para o educador, o corpo docente ainda tende a prender o conhecimento em vez de agregar conceitos sustentáveis às matérias e ao meio acadêmico. "A visão do professor deveria ser ampla a ponto de mostrar aos alunos como é possível agregar sustentabilidade aos temas abordados em cada disciplina. O isolamento habitual cria apenas nichos que não se comunicam entre si", declara.

Além da comunicação errônea, o vice-coordenador também cita a falta de planejamento como influência negativa à construção da idealizada universidade sustentável. O desafio foi inclusive tema do Colóquio Global de Reitores de Universidades, realizado em 2007, na Universidade de Nova York. Durante o evento, 25 gestores de diferentes nacionalidades discutiram o que as instituições deveriam fazer tanto dentro quanto fora do campus para mudar a situação. O debate, segundo Walcacer, resultou na criação de uma agenda ambiental para pontuar aspectos que giram em torno da coleta seletiva de lixo, economia de energia, construções ambientalmente corretas, educação ecológica para os alunos e a utilização de materiais recicláveis. "Essa agenda não pretende ser apenas mais um documento, precisa ser cumprida para que os resultados possam ser colhidos", conta ele.

Todos esses pontos, na opinião de Walcacer, convergem na educação da população em geral. "A sustentabilidade deve ser construída diariamente na vida de todas as pessoas", afirma. O educador aposta na construção de currículos acadêmicos mais sustentáveis para alcançar o nível de conscientização da sociedade, seja agregando disciplinas e cursos ambientais à grade curricular, organizando palestras, simpósios ou até mesmo semanas dedicadas ao Meio Ambiente. "Esses alunos serão formadores de opinião um dia, por isso o conhecimento que o Ensino Superior fornece é essencial para o futuro da sociedade", justifica.

Ainda que Antonio Leite Ruas Neto, professor de Sustentabilidade e Desenvolvimento Regional da UERGS (Universidade Estadual do Rio Grande do Sul), partilhe da mesma opinião de Walcacer e defenda a inclusão de cursos sustentáveis no Ensino Superior, ele acredita que a demanda imediata por profissionais sustentáveis possa criar um vácuo empregatício. "Isso acontece porque a economia cria necessidades fictícias de mercado e as IES acolhem essa demanda com cursos muito específicos sem agregar conhecimento às disciplinas que já existem", argumenta. O professor acredita que, para as instituições, as necessidades de mercado têm prioridade frente à sustentabilidade. Para ele, a universidade deve se ater exclusivamente aos seus pilares. "Ensino, pesquisa e extensão precisam sempre ser discutidos com empresas e sociedade para que o intercâmbio de informação possa criar soluções sustentáveis", afirma.

Adacto Otooni, engenheiro ambiental da UERJ (Universidade Estadual do Rio de Janeiro, também defende que o viés da sustentabilidade esteja no sangue de todas as disciplinas universitárias. Não apenas nas graduações ou pós-graduações de Ecologia e Biologia, tampouco apenas em cursos de extensão. O professor recomenda que a matéria se torne obrigatória em todos os cursos. "Fator que ainda não faz parte da realidade brasileira", afirma ele.

O papel da universidade, segundo Neto, é trazer o debate da sustentabilidade para dentro do campus acadêmico, com foco em todos os níveis profissionais e acessíveis a toda a comunidade. "O tema deveria percorrer todos os graus hierárquicos das empresas", aponta ele. Para inserir a sustentabilidade no mercado de trabalho, Fernando Schettino, professor do setor de Oceanografia e Ecologia da UFES (Universidade Federal do Espírito Santo), sugere que as universidades incorporem a rotina do futuro profissional permeada de atitudes sustentáveis. "Enquanto os advogados podem entender sobre a legislação ambiental e se adequar a ela, os engenheiros e arquitetos devem utilizar
conceitos verdes em suas obras. Até os médicos, quando fazem o descarte de material hospitalar, podem fazer uso da consciência sustentável", exemplifica.

Além da presença obrigatória no mercado de trabalho, o professor da UERGS acredita que a sustentabilidade não deveria se limitar apenas ao que cada instituição acredita ser viável. "As soluções sustentáveis deveriam vir à tona de maneira global, já que é desse modo com que o problema se apresenta para nós. Nesse momento, a troca de informações entre universidades, envolvendo inclusive outros países, é essencial", sugere ele.

Para Schettino, as universidades ainda estão em processo de mudança. Ele defende a criação de um órgão governamental que avalie o quão sustentável cada instituição é e, com base nisso, defina a disponibilização de verbas para infraestrutura e pesquisa. "Dentro desse modelo nós realmente estaríamos formando profissionais e pesquisadores preocupados com o conceito de que as ações momentâneas irão preservar o futuro", avalia o professor da UEFES.

A correta divisão de recursos também é, na visão Otooni, essencial para a criação de tecnologias sustentáveis e de soluções alternativas que possam resolver os mais variados problemas ecológicos. "Profissionais capacitados para gerar esses conhecimentos as universidades têm", garante ele. O próprio governo, segundo o engenheiro ambiental, deveria criar mecanismos para manter o País focado na sustentabilidade. "O Brasil poderia ser um grande produtor de energia solar e eólica, mas, por falta de investimentos, não é", lamenta.

Campus exemplar

A responsabilidade da instituição de ensino, para Geraldo Borim, coordenador de gestão ambiental da PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo), não se restringe apenas à educação e à pesquisa. Por sua visibilidade, ela também tem o dever de se tornar exemplo tanto para a comunidade interna quanto para a externa. Suas ações, porém, não podem se restringir à reciclagem de lixo. Borim recomenda que as universidades desenvolvam infraestruturas verdes. "Há como trazer para dentro do campus conceitos de construção limpa, iluminação natural, ventilação e captação de água", aponta ele.
A USP (Universidade de São Paulo), por exemplo, estuda a viabilidade de instalar um bicicletário e ciclofaixas para diminuir o trânsito de carros dentro do campus. "Esperamos conseguir incentivar esse hábito também fora dos nossos portões. Além disso, teremos em breve o recolhimento de produtos específicos, como óleo vegetal", diz Elisabeth Teixeira Lima, diretora em sustentabilidade da USP. Além dessas iniciativas embrionárias, há outras que já fazem parte da vida na universidade, como é o caso do Recicla USP, que
já completa 16 anos. "Nesse projeto a produção acadêmica trabalha com impressões frente e verso e papel reciclado", explica a professora.

Mas, segundo a diretora, para que esses programas continuem em processo de evolução se faz necessário a adoção de indicadores de sustentabilidade para a criação de metas. "Para trabalhar a sustentabilidade é preciso se organizar. O ideal é quantificar o consumo de papel, copos plásticos, energia e água para que as estratégias possam ser traçadas", orienta Elisabeth. Foi a partir desse estudo que a USP decidiu reduzir os eventos esportivos, que geravam consumo de energia e resíduos acima da média.

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