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Mais gastos com saúde do que com educação Notícias – 29/06/2010

Wagner Gomes

De acordo com a Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF), divulgada pelo IBGE, o gasto com assistência médica ganhou peso em relação ao último levantamento realizado seis anos atrás, passando de 6,5% para 7,2%. Já as despesas com educação caíram no período de 4% para 3%. A especialista em saúde pública Lígia Bahia, professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), disse que os reajustes dos planos de saúde e dos preços dos medicamentos acima da inflação podem explicar o gasto maior das famílias com assistência médica.

— Não há dúvida que os preços dos medicamentos e os planos de saúde sobem mais que as mensalidades escolares.

O efeito disso no orçamento familiar é grande e preocupa muito. As pessoas são obrigadas a desviar recursos destinados à cultura e ao lazer para saúde — disse Lígia.

Para a professora da UFRJ, o ideal seria que as agências reguladoras inibissem os reajustes considerados exagerados.

De acordo com o levantamento, em São Paulo os gastos com saúde respondem por 8,1% do orçamento familiar, ainda maior que a média nacional. O peso é o mesmo para ricos e pobres. A diferença fica no destino da despesa.

Entre os mais ricos, a despesa é maior com plano de saúde; e entre os mais pobres, com remédios.

Os custos com saúde do gerente de marketing Gerson Botelho, de 40 anos, cresceram tanto nos últimos anos que ele acabou deixando de pagar o convênio médico de sua mãe, Rita Botelho, de 71 anos, para economizar R$ 700 por mês.

Botelho é casado e tem dois filhos de 9 e 5 anos.

Atualmente, ele paga mensalmente R$ 700 de plano de saúde para mulher e filhos e mais R$ 330 de convênio médico para a sogra, que mora no Rio de Janeiro. Considerando despesas extras com consultas médicas fora do convênio e remédios, o gasto mensal se aproxima de R$ 1.500, quase a mesma quantia que ele gasta com a escola dos filhos.

— O plano de saúde da minha mãe subiu para R$ 700 e eu acabei sendo obrigado a suspendêlo. Se não fosse isso, pagaria bem mais em saúde do que em educação — disse.

Quando a situação financeira apertou, no início do ano, o gerente foi até a escola dos filhos, no Jardim Marajoara, na zona sul de São Paulo, e negociou desconto de 15% na mensalidade, que caiu a R$ 835. Ele sabe que com o convênio médico não dá para fazer o mesmo. O problema é deixar a mãe sem assistência médica particular até ele conseguir reequilibrar as finanças.

— Mais cedo ou mais tarde terei de voltar a pagar o convênio da minha mãe que tem idade avançada e precisa de assistência médica.

Daí o meu orçamento com saúde vai para as alturas. A preocupação é o que pode acontecer até lá. É um absurdo elevar o preço do plano de saúde à medida em que a pessoa vai envelhecendo e precisando cada vez mais de assistência — disse.

O pai de Botelho morreu sete anos atrás após cinco anos de tratamento de doença autoimune na rede pública de saúde.

— Tenho medo dessa situação se repetir, de viver novamente o drama de dependência do sistema público de saúde. Nós da classe média vivemos no limbo, no limite de gastos. Abrir mão de um plano médico para uma pessoa idosa é desesperador — disse.

‘Multinacionais fazem pressão para subir preço’ Para o técnico de planejamento e pesquisa do Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas (Ipea) Paulo Corbucci, a falta de concorrência faz os planos de saúde serem mais caros e pesarem mais no orçamento familiar.

— Mais de 90% do ensino fundamental é público. Merenda, livros e até transporte são gratuitos.

Apenas 14% dos jovens de 18 a 24 anos cursam o ensino superior, que em sua maioria é privado.
Se diluirmos esses custos com a faculdade nos gastos com educação, o percentual será bem pequeno — disse Corbucci, especialista em educação.

— Não é a toa que os custos com saúde, onde as multinacionais do setor fazem pressão para elevar o preço, são maiores no orçamento familiar. Saúde não é escolha, é necessidade.

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